TSE de Nunes Marques discutiu minuta que restringia o “Exército do Lula”
Texto previa bloquear canais políticos no WhatsApp com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas antes e 24 horas depois do 2º turno; proposta foi engavetada após repercussão negativa

O Tribunal Superior Eleitoral presidido por Kassio Nunes Marques levou à discussão uma minuta para restringir canais políticos no WhatsApp — entre eles o Exército do Lula, com mais de 7 milhões de inscritos — nas 48 horas antes e 24 horas depois do segundo turno. O texto previa bloquear canais com mais de 200 mil seguidores, conforme noticiou o g1, e foi abandonado após repercussão negativa.
- Reportagem — Ministros do TSE discutiram bloqueio de canais políticos no WhatsApp às vésperas da eleição: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/10/21/ministros-do-tse-discutiram-bloqueio-de-canais-politicos-no-whatsapp-as-vesperas-da-eleicao.ghtml
A minuta que mirava o canal de Janones
O documento redigido pelo vice-presidente da Corte, André Mendonça, equiparava canais de grande audiência a conteúdos impulsionados e valeria para “canal, grupo, comunidade ou lista de transmissão em aplicativo de mensagens” com conteúdo político-eleitoral. Pela redação, a vedação atingiria o Exército do Lula, que ultrapassou 7 milhões de inscritos, e a Tropa do Flávio, com 2 milhões de usuários, segundo O Globo.
- Reportagem — Presidente do TSE deixa proposta de restringir canais no WhatsApp para depois das eleições após repercussão negativa: https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/10/21/tse-discute-proposta-para-restringir-canais-politicos-no-whatsapp-a-48-horas-da-eleicao-nunes-marques-diz-que-texto-e-esboco.ghtml
Ao jornal, Nunes Marques chamou o texto de “apenas um esboço” e disse que a análise “deve ficar para as próximas eleições (em 2028)”. À TV Globo, afirmou não ser “favorável a mudança de última hora” e que a resolução não deve avançar.
Ministro indicado por Bolsonaro
Nunes Marques foi indicado ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro, em 2020, e preside o TSE no ano eleitoral. Foi dele a determinação, em 11 de outubro, para suspender o Exército do Lula a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), sob acusação de desinformação — decisão derrubada horas depois pelo corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva e restabelecida em seguida, conforme o Brasil de Fato.
- Reportagem — Nunes Marques descarta votar veto a canais políticos de WhatsApp às vésperas do 2º turno: https://www.brasildefato.com.br/2026/10/21/nunes-marques-descarta-votar-veto-a-canais-politicos-de-whatsapp-as-vesperas-do-2o-turno/
O relatório técnico do próprio TSE não localizou os conteúdos falsos apontados pela campanha bolsonarista, e Nunes Marques condicionou o funcionamento do canal ao registro na Justiça Eleitoral, cumprido pela campanha de Lula em 13 de outubro. A ofensiva contra o canal de apoiadores parte, portanto, de um pedido da campanha adversária e é conduzida por um ministro indicado por Bolsonaro.
A equação é o oposto da liberdade de expressão que a direita diz defender: a proposta suspendia a circulação de conteúdo político justamente no período decisivo da votação. Na prática, o corte de 200 mil seguidores pesaria de forma desigual — o canal lulista tem mais que o triplo de inscritos do bolsonarista, ainda segundo o Brasil de Fato.
Canal de apoiador, fora da estrutura da campanha
O Exército do Lula é administrado pelo deputado André Janones (Rede-MG) e não se confunde com o canal oficial da candidatura. A defesa de Lula declarou ao TSE que o registro do endereço eletrônico foi feito apenas para cumprir a determinação e não significava assumir a gestão do espaço.
Para a advogada Anne Cristine Cabral, especialista em direito eleitoral, canais de apoiadores não se enquadram na obrigação legal: “É um canal de apoiador, a rigor isso não consta na obrigação da Legislação”, disse ao Jornal da CBN. A minuta, na prática, alcançaria um canal mantido por terceiro, sem vínculo formal com a estrutura de campanha.
- Entrevista — O que a lei eleitoral diz sobre o uso de canais de WhatsApp pelas campanhas políticas ou apoiadores? Entenda: https://cbn.globo.com/programas/jornal-da-cbn/entrevista/2026/10/14/o-que-a-lei-eleitoral-diz-sobre-o-uso-de-canais-de-whatsapp-pelas-campanhas-politicas-ou-apoiadores-entenda.ghtml
É exatamente essa lacuna que dividiu o tribunal: definir em que circunstâncias um canal mantido por apoiadores pode ser considerado vinculado formalmente a uma campanha, segundo O Globo. A dúvida não foi resolvida e ficou fora desta eleição.
De 50 mil a 7 milhões
O canal tinha cerca de 50 mil inscritos antes do primeiro turno, em 4 de outubro, e chegou a 1,8 milhão três dias depois, segundo o Brasil de Fato. Ultrapassou 7 milhões nesta semana, com quase 3 milhões de novos inscritos desde que voltou ao ar.
A minuta apareceu justamente depois desse salto. Segundo o g1, os ministros debateram o tema em reuniões na sexta-feira (16) e na terça-feira (20), e a nota do gabinete de Mendonça afirma que houve “consenso entre todos os ministros sobre a necessidade de tratar do assunto”.
O gabinete de Mendonça sustenta que a proposta é “impessoal” e que os critérios “são objetivos e impessoais e valem igualmente para todos os canais de natureza político-eleitoral de grande alcance, qualquer que seja o candidato, o partido ou a orientação política”.
A Tropa do Flávio, porém, funcionou sem interrupção durante as duas suspensões do canal lulista. Segundo o Brasil de Fato, o canal bolsonarista também não estava registrado no TSE, e a campanha do PL só complementou os dados sobre seus canais digitais em 13 de outubro, depois da segunda derrubada do Exército do Lula.
Fontes consultadas:
- G1 — Ministros do TSE discutiram bloqueio de canais políticos no WhatsApp às vésperas da eleição
- Brasil de Fato — Nunes Marques descarta votar veto a canais políticos de WhatsApp às vésperas do 2º turno
- O Globo — Presidente do TSE deixa proposta de restringir canais no WhatsApp para depois das eleições após repercussão negativa
- CBN — O que a lei eleitoral diz sobre o uso de canais de WhatsApp pelas campanhas políticas ou apoiadores? Entenda